A assim chamada fotografia contemporânea de arte
trilhou um conturbado percurso, até conquistar o status de modalidade
artística autônoma, no início dos anos 1970. Desde
então só faz reafirmar sua condição de linguagem
rica em recursos e de possibilidades quase inesgotáveis, na medida
em que ainda se ampara no instinto, criatividade e sensibilidade humanos.
No âmbito das artes plásticas do Brasil, nota-se hoje uma
disposição e interesse crescentes de público e de
mercado para com esse mídia, em níveis inéditos.
Nesse contexto, a produção de Avani Stein
pode ser encarada como um suave contraponto à profusão de
meios híbridos, sofisticação de recursos e discursos
que permeiam boa parte do universo da produção de fotografia
contemporânea. A artista erige seu mote processual no ato de interferir
graficamente sobre registros de sua própria autoria – "descascando"
a imagem e operando sobre a mesma com técnicas diversas -, elaborando
composições em que a prática artesanal ora repotencializa
ou subverte os elementos originais da imagem, ora configura mesmo um "novo
produto". Na contramão de uma estratégia amplamente instituída
no meio artístico, a da apropriação, Avani trabalha
essa noção sob um viés por assim dizer singular, em
tempos pós-tudo, "apropriando-se" do próprio trabalho. Outro
aspecto de seu processo que destoa de práticas correntes na fotografia
de arte reside em sua insistência em operar diretamente sobre o papel,
a imagem já impressa, ao invés de intervir no negativo, com
todas possibilidades alquímicas que as técnicas de laboratório
reservam.
Nesse procedimento, essencialmente experimental e intimista,
evidencia-se uma alta carga de afetividade conduzindo a intuição
e compulsividade com que Avani ataca a superfície do papel – uma
carga afetiva que dá a medida da própria relação
da artista com a fotografia em si. Resultam luminosas colagens visuais,
mosaicos compostos de grafismos e rasgos de cor de beleza imprevisível,
em que lampejam aproximações possíveis com a experimentação
dadaísta.
O fazer artístico de Avani não aspira a
alguma das tão recorrentes "missões" que a fotografia dos
dias atuais parece conclamar: em sua poética não está
em curso qualquer investigação acerca da perda de identidade,
o desejo de se construir ficções ou constituir tipologias.
Ao clichê da imagem fotográfica como registro de experiência
e provocadora de novas percepções no ato de olhar, "imortalizando"
fatos e momentos, a artista contrapõe uma inventividade despojada,
o descompromisso com rotulações e a serenidade de quem se
pauta pela paixão que extrai do que faz. Um dado evidenciado no
seu repertório visual até certo ponto singelo, constituído
no ir-e-vir de seu cotidiano.
A fotografia, aqui, é a um só tempo meio,
suporte e plataforma de incessante experimentação estética.
Um sistema em que se confude e subverte uma hierarquia possível
entre linguagem, imagem e produto artístico; a imagem ainda é
o ponto de partida, embora possa se ver convertida a mero índice
da ação estética que a mesma convida a ter lugar.
Se fotografar pode ser um modo de melhor questionar ou apreender uma imagem
anteriormente percebida, Avani confirma e ratifica essa assertiva, ao conceber
a imagem-suporte e ao reinventá-la com suas interferências
posteriores.
Se W. Benjamin proclamava, em sua “Pequena História
da Fotografia” (1931), que "as ênfases mudam completamente se abandonamos
a fotografia como arte e nos concentramos na arte como fotografia", na
obra de Avani Stein as duas acepções são indissociadas.
Se há os que afirmam utilizar a câmera fotográfica
como outros se servem do lápis ou do pincel, aqui esses elementos
se (con)fundem: complementam-se e se imiscuem, no que poderia ser definido
como uma poética do imprevisto e da compulsividade criadora.
Guy Amado